-Sabe, gato, às vezes eu queria ser como você. Despreocupado, apenas sobrevivendo com o pouco que tem, que por menos que seja parece muito aos seus olhos. Você talvez nem saiba que um dia irá morrer, só desvia da morte, por instinto puro, e segue seu rumo de gato. Foi assim que você veio parar aqui em casa, fugindo da morte instintivamente.
O gato o olhou intrigado, e então deitou na almofada. O moço, estava à vontade ali, e pode ver no gato a certeza de que era para o bichano que ele deveria definhar todas as suas preocupações humanas, como se aquilo fosse algum tipo de terapia asiática ainda não conhecida pelo mundo ocidental, mas que porém, faz muito bem à saúde mental. O moço sorriu, deitou a cabeça no encosto do sofá para fazer dali o seu divã, e começou sua divagação.
-Doutor gato, o senhor não deve me conhecer, apareceu por aqui tem só umas duas semanas, mas imagino que já tenha visto por aí muitos seres humanos como eu. Sabe, nós somos de espécies diferentes, porém nossa classe biológica é a mesma, o que me deixa de alguma forma mais próximo de você. Num outro momento da história, você talvez seria o meu jantar, ou eu o seu. Eu não entendo muito bem disso tudo, e não me sobra muito tempo para ler, mas eu gostaria que você soubesse que nós, humanos, somos os seres mais horríveis da face da terra.
Não adianta me culpar com esses olhos, doutor gato, você conhece essa fala. O ser humano é mal, é vil, e tem a maior vantagem entre todos os outros animais que é a razão, porém a usa de forma pouco gentil, principalmente uns para com os outros seres humanos.
O ser humano não se basta por matar sua fome, sua sede, não cessa ao reproduzir a espécie, não foge da morte unicamente por instinto. O que de longe seria uma vantagem, no momento acarreta tudo de pior que já se ouviu falar. E eu estou cansado de estar no meio dessa corja. Não acho que seja o melhor ambiente, esse mundo dos humanos. Eu daria tudo para ser como você, doutor gato, de alma livre e livre de julgamentos.
Toda essa liberdade felina que você tem, seria muito bem vinda para mim. Olhe para mim. Eu tenho 35 anos. Tenho duas faculdades, duas pós graduações, e uma barba mal feita. Tenho um apartamento, tenho um carro, tenho boas roupas, e um emprego, e o que mais? Não tenho nada, doutor gato. Tudo me vem fácil, tudo me vai fácil, meus prazeres me tornam escravo, eu vivo por eles, e não eles por mim.
Agora eu tenho você, todos os dias eu abro esse apartamento e te vejo com olhos famintos. Te dou comida, te faço meu, você é parte de mim, e meu coração já pertence à você, porém você não pertence à mim. Logo encontrará quem te dê mais carinho, quem seja mais seu, que te trate com mais zelo, que preze mais por você, e quando você for embora, eu estarei aqui ainda, nessa mesma condição degradante.
Não encontro muito sentido, sabe, doutor gato? Nem para fazer, e nem para desfazer, liguei tudo o que eu preciso ligar para ser um bom profissional, mas agora não sou mais alguém. Eu sou o número do meu cpf, e não sou mais quem eu era há 18 anos atrás, quando estava vivendo minha juventude com toda ferocidade hormonal, com toda a alegria de ser jovem. Hoje estou aqui, sendo o adulto frustrado que jamais imaginei que seria. Mas só você pode saber disso, senhor gato, só você pode saber. Não posso vender essa imagem derrotada para os que me cercam, porque eles também estão derrotados, mas nunca venderam esta imagem para mim.
Às vezes penso que eu não deveria ter feito essas faculdades. Elas me dão dinheiro, mas o que mais? Claro que o dinheiro é bom, mas o que fica depois que ele acaba, senhor gato? Não tenho amparo, não tenho família, e todos à minha volta estão muito corrompidos pelo egoísmo. Acho arrogância da minha parte pensar apenas em mim dessa forma, mas se eu não pensar em mim, vou acabar pensando no jogo de futebol, ou nas contas a pagar.
Não me sinto mais vivo. Acho que morri há uns cinco anos atrás, e nem é culpa de ninguém, nem mesmo minha. Roubaram o que eu era, roubaram minha essência, hoje eu sou apenas uma caixa de preocupações fúteis sobre as revistas de carros esportivos. Eu nem sei mais quem sou eu. Acho que virei produto.
Sabe gato, sua vida é meu maior anseio. Uma vida curta, porém plena. Você continua sua espécie, você come, você dorme, você corre dos perigos, e então morre, sem nem saber que morreu. Morre sem ter parado para pensar sobre o que é e o que deixa de ser. Você morre sem ter tido medo, sem ter tido válvulas de escape, sem ter tido vícios, você morre porque é a lei natural, e não se preocupa em entende-la, pois não há explicação.
Você é aquilo que eu mais gostaria de ser, gato. Sem álcool, sem cigarro, sem mulheres, sem computadores, sem revistas, sem padrões, sem preconceitos, você nasce felino e morre felino. Eu nasci ser humano, e vou morrer sem o humano, deixei o humano pra trás, agora apenas sou um ser. Não utilizo-me mais das vantagens humanas para nada, não sou altruísta, não vejo prazer num beijo, não uso meu dom racional, e por vezes esqueço que tenho polegar. Sabe doutor gato eu estava pensando que se talvez....
O moço ouve um alto ronronar e olha para o doutor gato. Incompetente, dormiu em serviço. O moço pega sua cerveja, liga a televisão, tira a gravata, e morre mais uma vez.
Em "A Paixão Segundo G.H.", de Clarice Lispector, um monólogo se desenrola a partir do encontro de uma mulher com uma barata. Recomendo!
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