terça-feira, 12 de abril de 2011

Dentes.

Ela mantinha o olho no papel. Firme e voraz, ela discorria suas palavras pouco refinadas no pedaço morto de celulose, querendo provar do que era feita.
Sua sabedoria incipiente ainda estava distante do que ambicionava, mas ela escrevia com liberdade sobre tudo aquilo que já tivera lido, tudo que sabia, tudo que pudera compreender até ali.
Ele parou ao seu lado e lhe açoitou com seu perfume sutil, que ela reconheceria mesmo a milhas de distancia.
Parou de desfrutar as delícias sublimes de seu devaneio e voltou à preencher linhas nuas com suas palavras tolas.
Tola, tola, tola. Agoniada, ela tentava exprimir o sopro daquilo que a faria viver novamente. Ela estava pulsante daqueles velhos sentimentos piegas que acendem o brilho no olhar. Ela precisava expulsa-los, espalhar-los, saborear o doce gosto das palavras que tinha em mente, sussurrando-as no ouvido dele, ele que reluzia aquilo que era apenas do domínio dela.
Os pensamentos desenhavam curvas indefinidas, enquanto a mão corria sobre o papel.
Quais palavras? Quais palavras? Ecoavam em suas mentes os vocábulos tanto da razão concreta, quanto da sabedoria indefinida do amor.
-Clarice, venha aqui.
Ela se colocou em pé num súbito salto, e em meio ao rebuliço sentiu o estranho, porém típico, embrulho estomacal.
-Ande, depressa!
Passo à passo ela caminhou repetindo as palavras que tinha em mente. Ela o faria agora mesmo.
-Sim, professor.- Respondeu aflita, do alto de sua gigantesca insegurança e de seu físico ínfimo e seco.
-Escuta, menina. Não te acho apropriado que andes por aí sempre sozinha.
Ela restringiu a resposta à um tímido abaixar de cabeça.
-E também acho que...
"Ache que sou sua"- pensava a agonia de sua mente.
-Acho que tua maneira deveria ser menos metódica. Acho que teus olhos estão sempre muito insípidos. Acho que tua cabeça está muito curvada. Acho que tu deverias ser menos devota aos desprazeres. Acho que deverias sorrir mais.- Complementou ele.
-Não são os desprazeres não.- Clarice balbuciou, ainda de cenho abaixado.
-Então o que haveria de ser, menina?
Ela sintetizou tudo num eu te amo apressado, que correu insano em sua garganta, mas que teve o desgosto de perder a força nos dentes cerrados.
-Nada não, deixa eu ir que tenho dentista.

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