Entender é a tarefa mais complexa que já nos foi imposta desde os primórdios da vida humana. Entender é a junção das pequenas compreensões alheias, entender é não ver com sua própria visão, mas com a visão de todos.
É disparado então uma série de fatores que influenciam na compreensão, o primeiro deles, é a maneira com que nossos eus se compreendem como coisa, como ser, e é justamente aí que se encaixa toda a minha problemática pessoal. Eu não me compreendo, e nem sei se quero.
Me compreender seria me limitar à forma atual, e recuso-me a ser objeto, que nunca muda, que nunca pensa. Recuso-me a deixar a vida de lado para ter menos conflitos interiores, então conflito com meu eu, conflito com meu externo, e acabo por fim me frustrando com a falta de compreensão em que toda a minha existência está alicerçada, porque crer é necessário, compreender é anseio e não ser quem se é realmente, é a pratica da vida aplicada.
Quando eu morrer, me pergunto o que dirão sobre mim. Me compreenderão quando eu for carne morta, eu me compreenderei como carne morta, compreenderei minha morada abaixo da terra, compreenderei o cumprimento da minha sentença biológica, e quem sabe, espiritual. Entenderão as minhas formas exclamando que fui mais ou menos agressiva, mais ou menos simpática, mais ou menos humana; mas morreu, de qualquer forma, é o que acontece com todo mundo. mas tão nova? e os filhos e o marido? e o cachorro dela? e a herança? coitada, nenhum pra chorar no velório dessa pobre defunta. ela se foi, mas o que importa é que foi uma boa mulher.
As compreensões externas não me satisfarão porque toda a minha essência de alma permanecerá estática perante aos olhos dos outros, com aquilo que fui em vida, e morrerei sem a compreensão verídica sobre o que eu sou. É intensa a vontade de compreensão, porém é quase inútil sua aplicação, pois não se compreende o humano, não se compreende o abstrato e o fugaz.
Me colocam em gavetas fechadas de compreensão global. Mas não sou. Não sou porque não penteio meus cabelos, e não sou porque gosto de ficar em casa no final de semana. Não sou quem dizem, e nem estou onde me colocam, porque eu fujo, e não gosto de procurar a minha gaveta. Não o sou porque não gosto de cortar as unhas, e não o sou porque como beringela. Não o sou porque escrevo, e deixo parte da minha essência real nas palavras.
Minha gaveta não existe, ela é incompreensível como meu ser, como todo o ser, como toda a compreensão é, como todo o infinito azul e rosa diante dos nossos olhos negros. É infinito quem sou eu, e quem tu és, e quem nós somos, porque não somos, estamos sendo, e um dia seremos, e é só ai que nos compreenderão.
Algumas vezes, como agora, você me lembra Clarice
ResponderExcluirNão entendo
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
Clarice Lispector
É O MAIOR ELOGIO QUE EU EU JÁ RECEBI NA VIDA. Muito obrigada Su, depois dessa não paro mais de escrever!
ResponderExcluirQue bom! Porque eu adoro ler! =D
ResponderExcluirAdoro a escrita livre e o subjetivismo profundo, livre de amarras e julgamentos; então, pra mim o seu Blog é exemplo de que tem muita coisa boa na internet, e que ela é mesmo capaz de unir pessoas como nenhum outro meio de comunicação, é só saber procurar.
Bjos moça!
Obrigada de coração, dona Suelen! Você é uma daquelas pessoas com quem não quero perder o contato nunca. Obrigada pelas palavras de incentivo, são pessoas como você que me fazem ter cada vez mais a vontade de seguir com o caminho da minha escrita!
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