E então passaram-se os anos. Seu cabelo cresceu deveras vezes, e foi cortado tantas quantas fora preciso. Sua voz mudou a tonalidade, cada vez ficando mais e mais grave, perdendo a cada dia um pouco mais da altivez juvenil. Agora lhe aparecem então esses fios na cabeça, esses fios que já não aceitam a pigmentação natural, que já dispensam o apego pela cor, que tornam-se dia após dia mais acinzentados e menos volumosos.
Tudo está constante, como sempre estivera, mas agora já é difícil reconhecer seus próprios traços no espelho, a pele se nega a ter o mesmo aspecto exuberante que tivera até ontem mesmo, e tudo lhe parece fugaz demais, tudo lhe parece rápido demais, embora tudo passe por seus olhos em câmera lenta.
Qual fora a última vez que sentara diante ao mar e contemplara toda a doçura dos traços da natureza? Quando sentira pela última vez o cheiro da maresia que invade as narinas e faz de si a utopia? Não se sabe, sabe-se apenas que não lhe existe mais o tempo. O tempo está desfigurado, o tempo não tem mais a quantia exata que lhe foi definida e se conturba cada vez mais e mais. Sente falta de quando o tempo demorava a passar, enquanto brincava de invadir poças em meio à chuva torrencial. Não se lembra mais do cheiro da chuva.
E os olhos? Os olhos que brilhavam ao anoitecer, que tinham por si só o sorriso, hoje não lhe parecem mais imponentes. Os olhos estão esbanjando em todo seu diâmetro o cansaço dos anos, e em especial, o cansaço daquele dia ruim. Os olhos também não conseguem mais chorar, talvez as lágrimas todas tenham sido levadas na última desventura leviana em que se envolveu. Os olhos não lhe tem mais a capacidade de falar, refletem apenas aquilo que fora e hoje já não é.
Mas de tudo que perdera, de toda a beleza que lhe fora levada durante aqueles anos, de toda alegria de viver que fora-lhe tomada, o que mais pesa na balança do tempo é o fascínio, ou melhor, a falta dele. O fascínio foi levado embora, a inocência também não teve mais ali o seu lugar. Lembrava-se de tudo que tivera vivido, mas lhe era quase impossível descrever com as palavras o que fora aquele fascínio inocente que tivera somente até o fim da infância. A juventude lhe foi grata, mas não tanto quanto a infância. A infância sim lhe tivera trazido a graça, a curiosidade e o fascínio de cada dia, que se perdera fatalmente ao longo desses anos sórdidos.
Sentia falta da alegria ao encontrar o trevo de quatro folhas no jardim, sentia falta das crianças que sujavam-se todas sem medo algum, que criavam todas as formas e todos os ângulos com o que podiam, que sorriam destemidas e choravam desoladas por causa do machucado no joelho. Sentia falta, sobretudo, da graça com que conseguia apreciar cada dia, e cada nova descoberta, sentia falta da facilidade com que o mundo lhe encantava, com que as pessoas lhe encantavam, tudo lhe era belo, tudo lhe era impecável em cada detalhe, sem ao menos se esforçar.
Malditos anos que trouxeram para sua mente a desgraça da exigência, a desgraça da aparência, a desgraça de estar são. Buscou nos vícios duas ou três vezes voltar a ver aquilo que via quando ainda não lhe tiveram corrompido a inocência, mas estava, infelizmente, diante de uma perca insubstituível e inestimável. Os vícios lhe trouxeram, com o tempo, mais e mais o peso de ser um adulto, lhe carregaram aos poucos para um abismo existencial, de onde jamais conseguira sair.
Pondera agora sobre o peso das consequências, pondera sobre o tempo perdido, pondera sobre as escolhas, e decide por fim, que é hora de se deitar.
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