sábado, 2 de abril de 2011

Telefonema.

-Sabia que eu ainda tenho medo de escuro.
-Não.
-Eu tenho.
-Aé?
-É. Sabe aquele medo de olhar pela janela e ver aqueles monstros de filme de terror? Então.
-Sei não.
-Nunca teve medo de escuro?
-Já. Mas eu era criança.
-Juro que não conheço uma só pessoa que nunca tenha tido medo de escuro.
-Mas já te disse que eu já tive, só não tenho mais.
-Então o que você tem?
-Sono.
-Sono não vale, estou perguntando o que você tem com esse desânimo na voz. Não lembrava de você assim.
-Tenho passado por uns problemas, mas nada grave.
-Como nada grave? Quando o tom de voz muda, tem coisa grave sim.
-O que você sabe sobre as coisas?
-Não muito, mas sei de você.
-Sabe o que de mim?
-Sei que você não gosta de sofrer, e que desconta frustração em bebida, e cigarros, e café, e num gato.
-Você não sabe nada de mim.
-Sei que você dorme de meias. E que gostava de ouvir minha voz acordando. E que o dia que seu cachorro morreu você ficou muito triste. E que você acha que eu endoido.
-Endoida mesmo.
-Endoido nada.
-Endoida sim.
-Tá, eu endoido. Mas é a minha reação natural ao stress, e também às minhas crises de ciúme secreto.
-Aé?
-É sim. Por essas e outras que eu andei meio desvairada esses tempos.
-Então porque tá me ligando agora, sua burra?
-Porque eu senti saudade. E você sabe que eu odeio esse burra.
-Você sabe que é carinhoso.
-Sei não. Na verdade não sou muito do seu mundinho, lembra?
-Você nunca me viu.
-Vi sim, uma vez.
-Aquela não vale.
-Porque não?
-Porque você estava tão bêbada que estava cantando aquela música.
-Aquilo não era estar bêbada. Aquilo era não ter o que fazer.
-Aquilo era bêbada sim.
-Era nada, saco.
-Lindeza.
-Tá, quer ver, eu lembro que você estava usando uma camiseta branca. E que saco esses elogios hein?
-Vai endoidar de novo é?
-Não. Aposto que você não lembra a roupa que eu estava usando.
-Não mesmo.
-Lembro de tantas coisas. De uma camiseta do Star Wars, e de uma do Yeah Yeah Yeahs, tudo numa noite só. Você nem lembra de nada.
-Vou ter que desligar.
-Mas já?
-É, vou ter que fazer alguma coisa e tenho que desligar. Outro dia a gente se fala.
-Você sempre tem que desligar.
-Vai ficar zangadinha, piá?
-Não, e não me chama de piá. Boa noite.
-Boa noite.
Tututututututu.



Saco.

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