quarta-feira, 6 de abril de 2011

Silêncio.

Eu nem sei por onde começar. Até a noite passada, nós estávamos bem, você entende? Tudo corria perfeitamente bem, e foi aí que ela resolveu ficar calada. Eu até tentei dizer alguma coisa que fizesse efeito, mas o silêncio era a minha única resposta. Depois de alguns minutos, fiquei tão intrigado que não conseguia mais nem prestar atenção nas pequenas coisas que estava usando para me distrair daquele momento silencioso e constrangedor.
No princípio, eu estava imaginando que fosse alguma coisa relacionada comigo, mas ela me abraçou em meio à falta de palavras, então fiquei novamente com essa incógnita gigantesca na cabeça. O que tivera acontecido de tão grave para nos proporcionar aquela pausa? Eu não sei bem. Talvez fosse um pedido de apelo, talvez ela estivesse querendo dizer que gostaria que eu fosse menos ortodoxo, ou quem sabe menos trivial. Eu não sei, não consegui captar no olhar dela as palavras que lhe faltavam à boca. Ela estava me evitando até no olhar. Ela só me abraçava confortavelmente enquanto nossos dois corpos estavam imóveis e silenciosos na cama.
Perguntei, em meio ao calor do abraço, o que lhe ocorrera de tão grave para estarmos passando por aquele atípico momento de inação. Ela nada respondeu, apenas sorriu e virou para o lado oposto ao meu.
Imaginei então que tivesse mesmo alguma coisa a ver comigo. Fui tomar banho. Passei cerca de 45 minutos debaixo do chuveiro para tentar tirar de mim qualquer coisa que desagradasse as narinas dela. Voltei pra cama, e nada de novo.
Aproveitei a noite agradável de ontem e a convidei para sair. Ela não tirou o roupão, e foi até a porta. Ficou parada ali, apenas olhando, com aquele olhar pouco animado que para mim é quase doloroso.  Eu ofereci um cigarro. Ela nem balançou a cabeça para recusar. Sentei então aos pés dela e perguntei: "Porque você tem me evitado assim? O que eu fiz de errado? Eu vou continuar sendo chato até que você me responda".
Ela olhou-me com seus olhos inconvenientes, que me fazem ter borboletas no estômago até hoje, e deu um sorriso meio amarelo, mas nada disse. Eu entrei em pânico com a possibilidade de ela ter deixado de amar. Ela fora a coisa mais importante para mim nos últimos tempos, ela me procurou até eu conseguir entender que era ela o que me faltava para sanar aquele vazio que eu vinha sentindo há tempos. Perde-la dessa forma seria tudo o que eu não cogitaria naquele momento. O que eu faria? Que rumos tomaria? Onde estaria minha base ao voltar para nossa quase casa todos os dias depois da faculdade? Eu não iria conseguir sem ela.
Agoniado durante infinitos minutos, a perguntei se meu amor lhe incomodava, ou se ela não me amava mais. Ela franziu o cenho e sentou no sofá.
Sem rumo e nem direção, eu falei pra ela que iria sair. Ela nem mesmo perguntou para onde. Eu peguei o carro e fui, e não olhei pra trás. Dei umas três voltas perto do barzinho onde nós nos conhecemos há cerca de cinco anos atrás. Eu não fazia idéia da pessoa incrível que eu havia encontrado quando ela me olhou de cara feia naquele dia.
Voltei pra casa. Ela me sorriu com os olhos marejados quando entrei, e ainda antes de eu conseguir trancar a porta, ela já havia me abraçado, e eu estava mais confuso ainda. Eu não consegui entender, se é que você me entende.
A perguntei sobre o motivo do súbito silêncio de minutos atrás. Ela me disse que não era nada, era medo de que um dia eu não aparecesse mais. Eu continuei sem entender. Mas a abracei como quem abraça a garota de seus sonhos pela primeira vez. Ela é tão confusa e tão complexa que eu mesmo não faço a menor idéia de como eu consigo entender tudo, mas eu entendo. Ela não precisa falar muito, se não quiser, mesmo que eu goste de ouvir sua voz enquanto ela discorre eternamente sobre assuntos dos quais eu pouco entendo. Ela é tão completa.
Não entendo de jeito nenhum o silêncio de ontem a noite. Ainda estou meio perdido e sem saber o que pensar. Eu sei que a amo, e que nosso amor, apesar de bom, está distante de ser um amor idealizado, mas enquanto der pra levar, eu levo. Espero que não seja um daqueles silêncios de véspera de final, que não seja um daqueles silêncios de desamor, porque se for...

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