Jamais irei me ater a pequena potência dessas palavras escritas com quase desdém por essa parte de mim que precisa se expor para se conter, que precisa do rumo das linhas escritas para canalizar sua expansão desenfreada. Apesar da necessidade do fechamento da essência em palavras tão pouco verídicas, isso é um crime sobre mim mesma e minha enorme força de pensamento - esse amontoado de palavras são o máximo que minha força criativa consegue exprimir da infinidade presente em mim, minha força criativa e de expressão se atém a sua infimidade.
Por vezes, sinto que há em mim a necessidade incessante de ter um alguém tão singular quanto eu para que eu discorra as palavras pela boca, para que meu corpo e minhas expressões auxiliem na soltura dessa imensidão onde minhas próprias bases já se misturam em meio ao resto da construção do meu eu.
Na falta de ter com quem comentar a leitura de um livro fantástico, na falta de poder verbalizar com alguém ao som de uma música maravilhosa, pairo no limbo da minha solidão e converso inconclusivamente comigo. Observo junto a mim a fumaça que sobe do cigarro e dela concluo minha sujeira. Não caibo aos bons costumes, não sirvo ao ser mulher onde fui construída, tenho gosto pelo vagabundo e pela desordem, ao mesmo tempo que preciso de uma paz que não encontro em lugar algum. Me apaixono pelo lado mais cruel e desesperado que as pessoas conseguem exteriorizar, o lado mais animal do homem me agrada. Me apaixono por incongruências, momentos enfurecidos, palavras impostas com ódio, me apaixono pelo correr das lágrimas. Me apaixono por saber que, ao final da noite, os desconhecidos deitarão-se juntos e explorarão juntos aquilo que, envergonhado, jamais iriam expor socialmente.
Minha necessidade de ter em quem depositar meus impulsos é uma crueldade com o alheio. Não há quem possa me trazer calmaria, e com a calmaria imposta, eu certamente cansaria do amor, mesmo sem deixar de amar. Conceito de amor comum nunca me atraiu. Gosto do amor que corrói, corrompe, do amor irrealizado que faz sofrer, do amor interrompido que tortura a alma. Gosto do amor não concretizado que percorre, nebulosamente, a alma, sem achar saída, se vê impossibilitado de ganhar vazão pelas portas que a covardia teima em fechar.
Gosto do amor que dói, pela dúvida, e pela infinita possibilidade de criação que ele trás. Gosto da prática do amor, porque ela é suja, impura e mentirosa. Prezo pela amargura de ver minhas derrotas, prezo ao ver quem eu amo, amando outro alguém, beijando outro qualquer e oferecendo a este aquilo tudo que anseio com ardor. A irrealização me conduz e me condena ao fado de me sentir sempre em meio a solidão e ao sofrer, de ter que encarar o que eu quero não chegar até as minhas mãos. Gosto dos momentos de fúria que acarreta o sofrimento e a irrealização dos meus amores, e por esta eu prezo.
Trago em mim a certeza de que nada irá me suprir. O dia que eu me enxergar completa e segura, precisará de um dia de devastação da alma vindo logo em seguida.
A resignação não cabe em mim e nunca vou ter o suficiente para que me contenham fora desse constante processo de expansão. É aqui que me sinto plena, sem qualquer plenitude. Completa de nada. Me sinto coerente e respeitosa com o meu espírito.
Nadei quando deveria ter andado, e cheguei a uma ilha onde tudo o que eu preciso é respeitar o fato de que estar sozinha é minha melhor forma de companhia. Que meu genuíno sofrer descabido engrena tudo aquilo que me permite ser, e que aquilo que mostro, para mim, para o papel, para as diferentes singularidades, é só uma das mil formas onde posso dar vazão à infinidade daquilo que me compõe. Não sendo nada certo, e embasando na incerteza meus pensamentos inconclusivos, sou toda a pluralidade que me cabe em pequenos pedaços de finitude duvidosa.
Ora, se procuro alguém para amar e depositar nela quem eu sou, me torno incoerente e paradoxal. Não há como, amando alguém, partilhar com ela uma parte ínfima daquilo que me compõe sem submetê-la a um sofrimento imenso. Eu não me caibo em sofrimento, é mediocridade minha que eu force esse sofrimento a outras pessoas. Para os meus amores, essas almas as quais tento agradar, deixo apenas uma fração de mim, um tanto quanto inverossímil, mas inteligível em suas peculiaridades. A exigência para que acompanhem meu eu é absolutamente incoerente, nem eu mesma o acompanho. Resta a mim o penar de ter que assistir diversas, e consecutivas vezes, o meu amor sair de cena, como o bom desprezado que é. Meu desprezo por mim mesma causa minha resignação social. Para não infortunar o alheio - ao qual também carrego grande carga de desprezo - prefiro resignar aos meus próprios delírios quem eu sou, minhas mil faces, e quem eu busco dentro de mim.
Ainda sim sofro em estado de quase morte. Sofro por mim, e esse penar é o pior sacrilégio da vida. Sofro por minhas contradições e pelo meu ridículo apego à elas. Sofro por não me enquadrar na normalidade, pela não concretização dos meus amores, e pelo meu ceticismo. Me dói e me alimenta minha própria falta de fé, como um remédio amargo que enfrento a todo instante. Me dói minha incapacidade de um amor concreto e saudável, me dói a necessidade de amar. Me dói não diferenciar o bem do mal, e essa dor me mantém viva e alimentada, para que eu não cesse em busca da redenção, do meu encontro com minhas várias vertentes, do meu encontro com o alguém que não se amedronte perante minha discrepância em ser, se alimente dela, e me dê em troca sua própria maneira tortuosa de seguir.
A dor e o medo já são velhos amigos, fazem parte de mim e da minha busca e admito que com tudo o que eles me trazem, e tudo o que eles me afastam, meus moribundos dias vazios se afastam de mim. O medo e ador me trazem sentimento e criação, me afastam da calmaria que tanto repugno, e assim, ao me afastar de tudo, me aproximam mais de mim.
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