quinta-feira, 5 de abril de 2012

Ônibus.

Eles entram, todos afobados, distanciando ao máximo o olhar alheio, estavam exilados em seus universos e tinham medo do choque, do encontro colossal de umas almas com as outras. Estavam sujos, nulos, ou quase nulos de humanidade. Como robôs que dia após dia cumprem sua função e voltam para o repouso, estagnados numa realidade quase moribunda, sem perspectiva de mudança e agradecidos pela benção de ao menos poder contribuir trabalhando, contribuir sabe-se lá com quem ou o que, o custo benefício da rotina exaustiva já os fazia duvidar se havia mesmo algum ganho pessoal.
Muitos ali rezam aos sussurros pedindo prosperidade na vida futura, muitos outros, com medo, questionam a memória de Deus, que parece ter-se esquecido do homem frágil e trabalhador. Talvez fosse o próprio Deus que os estivesse testando com um intuito por nós desconhecido. Deus ainda não foi questionado, e ainda como robôs, desprovidos de qualquer resquício de dignidade, ungem-se ao passar na frente da Igreja. Não se questiona o porquê aquele amontoado de corpos que emanam cansaço têm de se submeter à esse mórbido cotidiano. Calam-se, tampam a própria audição com seus fones, e evitam qualquer contato visual.
Correm loucos, para achar assento, trombam-se como quem disputa uma presa para não passar fome, passam desesperados na roleta e então cumprem seus papeis de bons cidadãos.
Os que cansam-se, dali logo somem. Os afortunados deixam de comer para garantir outro meio. Os que já não veem sentido nessa porra cotidiana talvez voltem para cobrar o valor monetário, com uma arma nas mãos, o preço da dignidade que lhes foi roubada ao longo dos anos; e este trará rebuliço e indignação, porém irão se posicionar do lado errado da moeda.
Ao final do dia, irão colocar-se em suas camas, ligando a televisão para assistir o suposto aumento na violência, e acharão um motivo a mais para resignarem-se em seus sofás nas tardes de folga. Aquietarão suas almas na oração noturna, dormirão até a próxima manhã de trabalho, pelo qual eles guardam desprezo, mas acreditam ser a melhor forma de no mês que vem parcelar uma televisão nova.

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