Ela permanecia imóvel na sua falta de motivação, permanecia intacta. Dia desses decidiu que ajudaria todos aqueles que, aos olhos dela, necessitassem de ajuda, quis ajudar as crianças e velhinhos a atravessar a rua, quis sentir-se completa, dividir tempo para ouvir as histórias das pessoas, nem que fosse para não dar conselho algum e deixar que chorassem em seu ombro apenas pelo prazer de acariciar-lhes o cabelo. Mas tão grande era sua boa vontade, quanto ínfima era a vontade daqueles que deviam ser ajudados. Não havia tempo, nem espaço na vida das pessoas para que uma pequena lhes desse atenção e carinho, foi desprezada pelas bocas e então afastou-se, sentiu-se ainda mais desmotivada e estranha, quis mais ainda entrar no comando automático da vida e deixar de se afetar pelos que a rodeavam.
Quis ela, num ato de desespero, deixar de lado seu orgulho e jogar-se em busca de ajuda nos livros e nos consultórios. Não demorou muito a perceber que todos os humanos talvez passassem pelos mesmos temores que ela, e buscar solução para essa fúria agonizante não era nada, senão um ato egoísta, que não a ajudaria em sua missão de dividir amor entre as pessoas. Ela estava desesperada na esperança de encontrar alguém em que fosse possível depositar todo aquele amor incondicional que sentia, não pela vida, não pela dinâmica do universo, não por Deus, mas pelas pessoas, unicamente pelas pessoas e seus modos agitados. Ela enxergava inspiração nos impulsos subjetivos das pessoas, tanto quanto em sua maneira automática de levar o cotidiano, ela via nas pessoas o melhor meio de salvar-se de si mesma, ela queria as pessoas também por um ato de vaidade, e talvez justamente por ter essa consciência jamais conseguia se aproximar com clareza, jamais conseguia deixar expressos abertamente seus sentimentos, e jamais conseguia depositar em alguém todo amor que havia para ser depositado.
Em seus dias sozinha, a mente quase lhe dava um colapso geral. Ela espantava-se com a maneira que seus próprios pensamentos faziam dela vítima daquilo tudo, ela não queria ser a vítima, não queria enxergar-se como a vítima, não queria toda essa auto-piedade, isso causava à ela repulsa. Mas por fim, não conseguia enxergar-se de outro modo, via-se uma exímia sofredora do amor, como em tantos outros rostos, ela deixava transparecer sua necessidade para esperar que viesse ajuda-la, mas talvez agora fosse tarde. Ela queria ajuda, mas sua mente já se corrompera, a sensação de vitimização a fazia imaginar que o mundo a queria pelas costas, e louca, ela buscava alguém que fosse realmente digno do seu amor, enquanto o tempo passava, ela se corroía em solidão, deixava esvair em seu peito a dor e a lástima de não achar ninguém compatível com sua vontade de amar, sentia-se acuada pelas pessoas, pelos grupos de pessoas, e pelas formas que esses grupos tomavam. Ela queria-os por perto, mas não conseguia mantê-los por muito tempo, pois sabia que seu amor ali jamais seria aceito e jamais aceitariam-na como a forma torta e estranha pela qual se delineou ela, suas formas físicas e psicológica, e principalmente, não estavam prontos para o seu amor, havia muita ocupação na cabeça das pessoas, muitas preocupações, e de qualquer modo, haviam muitos outros dispostos a amar, tão dispostos quanto ela ou mais, então não haveriam motivos para que prezassem por esse amor louco que a corroía de dentro pra fora.
Ela quis achar o amor nos vícios, nos prazeres efêmeros, quis viver cada dia como se fosse morrer no dia seguinte, quis acabar com seu próprio corpo para sanar a dor de sentir a fúria dessa vontade louca de ter alguém que fosse capaz de aceitá-la em suas fraquezas, aceitá-la em seus incontáveis defeitos, aceitá-la em sua tortura. Mas como poderia ela querer que fosse aceita, se nem ela mesma conseguia aceitar-se. Corrompia sua boa vontade essa força estranha que a tomava de súbito, fazendo-a sentir-se desprezada e sozinha. Quis afastar-se e bloquear sua válvula de sentimentos, e assim o fez.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Críticas são sempre bem vindas. :D