A cabeça doía, pulsava, e de mais uma ressaca ele tentava se recompor, tentava assimilar os fatos ocorridos, tentava fugir da angústia de estar, como em tantas outras vezes, incompleto. Ele queria manter os pés no chão e olhar apenas para a perspectiva do presente, após tantas introspecções era mais do que claro que o grande mal da humanidade repousava na eterna busca por um ideal inalcançável que, eventualmente, acabaria em desilusão. Ainda assim ele tinha plena consciência de que esse aspecto do ser aflige toda forma de vida humana, e com ele não haveria de ser diferente. Novamente ele fora envenenado pelo poder do que as coisas poderiam se tornar, seduziu-se pela imagem de futuro delineada de maneira concreta em sua mente tão necessitada de alguma forma de ideal, por mais que isso fosse a fraqueza humana pela qual ele mais desenvolveu repúdio.
Almejou desvendar tudo o que permeava a cabeça daquela mulher. Encontrou nela justamente aquilo que não procurava, e deixou-se levar ainda mais pelo fato ser fruto do acaso. Em aspectos ínfimos de essência, que são aqueles que podem ser reproduzidos pelo limite dos vocábulos, encontrou nela a empatia necessária para que a amargura de seu eu já não o afligisse tanto, encontrou nela um pedaço de solidão, uma espécie de melancolia que ia além daquilo que comumente as pessoas conseguem expressar.
Nessa pobreza de complexidade, por onde se estabelece normalmente esse tipo de sentimento, linearmente cresceu meio desconfigurado, meio descompassado, meio vulgar, essa vontade insana desprovida de racionalidade. Ele conseguia prever o futuro, sabia e sentia, com a mesma intensidade que sentia o crescimento daquele monstro de aparência ainda tão gentil, que o que viria em seguida acabaria, como sempre jogando-o na certeza ainda mais convicta de seu fracasso como ser humano.
Ela não podia ser enxergada por ele como a provável solução de tudo aquilo que o deixava com esse sentimento de falta, ela não podia ser enxergada como quem o daria plenitude, ele não poderia usá-la como base para reconstruir seu coração já cansado, porque quando ela fosse embora, e com certeza ela iria, ele estaria de volta ao ponto zero, de volta ao seu fracasso pessoal, de volta à sua solidão que, dia após dia, tentava suprir com seus tragos, goles, e o pouco dinheiro no bolso.
A tolice humana assume formas absurdas, e como o bom, velho e falho humano que costumava ser, ele se deixou levar por seus pressupostos. Preso por suas inseguranças, ele não saia do lugar, e ao querer expor suas vontades, frustrava-se ainda mais. Ele queria saber dos julgamentos dela, antes mesmo de pronunciar uma palavra. Ele a quis em demasia, mas por sua cautela em excesso permaneceu imóvel, manteve seguro para si suas palavras, ele conseguia prever que não seria bom o suficiente, que haveria no mundo muitos outros homens que por desventura, acharam naquela mulher o mesmo que ele, homens não tão vazios, homens cheios de léxico, homens fortes e muito mais atraentes do que ele, era desses homens que talvez ela precisasse, e não dele.
E quem sabe ele fosse o que a complementaria, e quem sabe ela também encontrasse nele o que nem procurava, quem sabe pelos desatinos da vida eles tiveram de cruzar o mesmo caminho. Mas não haveria ninguém capaz de garantir, e pisar no escuro é deveras arriscado. O som da voz dele haveria de cessar se talvez ele deixasse-se levar da maneira desejada, e talvez ele escolhesse o melhor caminho em se calar. E talvez seja melhor, assim dessa maneira torta, dizer.
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