Não havia ninguém na saída
Os olhos estavam fechados
As bocas calaram-se todas
Ninguém ali me alcançava
Os pés pisaram em pedras
Perdidos, faziam piruetas
Firulando pelas praças pretas
Pediam, parados, o fim da dor
E quem buscava na mão um afago
Foi embora sem dela ter gozado
Quem pediu de um estranho a abertura
Viu-se só caminhando pelo meio da rua
O grande problema é que nunca pude
Mostrar as graças de não ousar servir em mim
Só posso dispor do tempo de mostrar uma
Das duas mulheres que me completam assim
A dona Ana é amiga de colo
De tão amiga não tem prazer
De tanta pureza só ouve as tristezas
Dos amigos que pelo mundo veio fazer
A dona Maria é cigana sem dono
Sem rumo, sem lar, sem casa, no abandono
Goza de ser só sua, e de mostrar-se nua
De mostrar-se fugaz para as almas que ama
E as duas donas distintas aproximam
As duas também repelem e abandonam
Aqueles que a Ana consegue pelo carinho
Ficam por perto sem ver o rosto da Maria
A Maria que, por oposição, conquista
Não se subordina à doçura da Ana
E incompleta entre essas duas meninas
Os que tenho por um dos lado
Pelo outro me abandonam
Quis entrar na caixa da normalidade
Mas os meus pés ficaram de fora
Prefiro essa minha capacidade
De achar-me uma a cada hora
Que há de tão ruim que me venham também
Os outros nos pedaços mal cortados?
Que mal há que me caibam uns pelo peito
E outros me sirvam melhor pelos lábios?
Não há maldade em não ceder
Para uma totalidade de mentirinha
De cada um retiro um pouco
De ninguém e todo mundo sou
E assim jamais hei de estar sozinha
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Críticas são sempre bem vindas. :D