domingo, 27 de março de 2011

Cara babaca.

-Ele não existe, ele não existe...
-Tá passando mal menina?
-Não, só estou tentando me convencer de uma coisa ai.
-Que coisa, menina?
-Escuta, eu nem sei quem é você, portanto não lhe devo satisfações. E outra coisa, detesto que me chamem de menina.
-Ok. Então porque VOCÊ está assim?
-Meu Deus, de onde você surgiu, cara?
-Não sei, eu estava andando e ai te vi passando e vim ver se estava tudo bem.
-Quer dizer então que faz isso com todo mundo que passa na rua?
-Não é isso, é que bem...
-Bem nada. Você pode ser qualquer coisa nessa vida, e eu nunca te vi antes por aqui, então some, vai.
-Não.
-Então sumo eu.
-Você não vai conseguir manter o passo mais acelerado que o meu.
-Então me deixa, caramba. Quem é você?
-Eu sou eu, eu existo, diferente do personagem de sua negação de segundos atrás.
-Ah, achava que você era João de Santo Cristo. E além de me seguir ficou prestando atenção no que eu estava dizendo, é isso?
-Nunca gostei muito de Legião Urbana. Mas olha, você estava andando desacompanhada no meio da noite e ainda por cima falando sozinha, acho que qualquer um teria reparado.
-Repare, contanto que não venha falar comigo. Não percebeu que não quero papo?
-Se não quisesse mesmo não estaria puxando assunto com a última frase terminada na forma interrogativa.
-Caramba, que saco é você. É provável que não existam nem duas pessoas inteiras que te suportam nesse mundo, hein?
-Minha mãe, meu pai, meu cachorro. E bom, eu estava na verdade até agora numa festa há umas duas quadras daqui, e resolvi subir para comprar bebida mais barata.
-Cachorro não é gente. E que bom para você.
-Depende do ponto de vista. Não quer voltar para lá comigo?
-Não.
-Então me conta aqui o que te aconteceu e porque você estava passando num lugar deserto desses à essas horas sozinha. Você é só uma menina.
-E você só um babaca.
-Se eu fosse um babaca já teria desistido das suas patadas e te deixado sozinha novamente por aqui.
-Você acha mesmo que eu estava precisando de você?
-Não, mas você estava precisando de alguém, porque pelo visto, quem você precisava não existe mais.
-Olha aqui, o que você sabe de mim?
-Sei que você deve estar na TPM, ou então acabou de brigar com alguém, porque não vejo nenhuma necessidade de manter esse tom tão ácido.
-Tom ácido? Por favor, vai.
-Por favor o que? Estou inteiro a sua disposição.
-Então se quer me agradar, me deixa sozinha.
-Quer mesmo?
-Quero.
-Mesmo com aqueles caras estranhos ali na esquina?
-Eu estou conversando com um cara estranho e perdendo meu tempo há uns bons minutos aqui. Existe coisa mais estranha que ficar parando as pessoas na rua no meio da madrugada?
-Existe.
-A é?
-Sim, falar sozinha de madrugada num lugar deserto, por exemplo. Em pleno sábado a noite. Ninguém te chamou para sair não?
-Não gosto de sair.
-Então o que está fazendo pro lado de fora da sua casa?
-Você está fazendo isso de propósito ou só é babaca mesmo?
-Depende também do ponto de vista. Gosta de que?
-Gostaria que me deixasse seguir, se não for pedir demais.
-Acho que é sim. A partir de agora me sinto responsável por você. Qualquer coisa que te aconteça de ruim é culpa minha.
-Pelo amor de Deus, você não deve ser nem uns dez anos mais velho que eu, e eu nem te conheço. Pela milésima vez eu repito, eu não te conheço, o que você está fazendo aqui?
-Na verdade, você pode até não me conhecer, mas eu te conheço.
-Como é meu nome então?
-Sei que você costuma pegar as sessões das sete no cinema nas quartas, nas sextas e nos sábados.
-Então deve ter me confundido. Eu nem gosto de cinema.
-Não mesmo? Então não era você chorando no lugar onze da penúltima fileira quarta-feira a noite.
-Você tem me espionado? Ele te mandou pra fazer isso?
-Ele quem?
-Argh. QUEM É VOCÊ?
-Essa pergunta pode ser respondida de formas muito versáteis, prefiro deixar em branco. Você tem, ou tinha, namorado? Então porque sempre estava no cinema sozinha?
-Sim, eu tinha. Nós terminamos, e agora ele não existe mais para mim. Terminamos porque ele estava se tornando invisível cada vez mais, então não tinha porque continuar.
-TEMOS UMA EVOLUÇÃO.
-O que é que eu estou dizendo para um estranho, meu Deus?
-Vai ver não sou tão estranho assim. Eu vi você mais cedo, no pub.
-Viu?
-Sim, com aquele cara estranho, que parecia seu namorado.
-Você é a pessoa mais estranha que eu já conheci, então pare de chamar as pessoas de estranhas. Aliás, você é tão estranho que nem te conheci ainda.
-Prazer então, meu nome é Arthur, e eu teho te visto em todos os lugares, ultimamente. Então agora que te vi absolutamente sozinha resolvi tentar a sorte.
-Tentar a sorte de que?
-De você, Alice.
-Mas desde quando eu me apresentei? E eu sou um tipo de loteria para as pessoas resolverem tentar a sorte comigo no meio da rua?
-Não sei o que você é, mas para mim, tem sido ultimamente uma dessas coincidencias inexplicáveis.
-Então porque só resolveu se apresentar agora, no meio desse nada? Pra me matar de medo?
-Timidez.
-Ainda te acho babaca.


Alice e Arthur tem mantido uma relação saudável nos últimos cinco anos, tirando alguns problemas não muito graves em relação a auto estima do Arthur e a desconfiança da Alice.
Eles já pensaram em se casar, mas perderia a magia.
Alice repete todos os dias o quanto acha Arthur babaca e Arthur nunca se irritou.
Hoje eles frequentam os cinemas nas sessões das nove aos sábados, porque é quando os casais tem descontos.
Arthur nunca conseguiu comprar a bebida que supostamente teria ido buscar ao encontrar Alice.
No mesmo dia eles foram para o apartamento dele, mas porque começou a chover.
Alice só o beijou pela primeira vez dois meses depois.
Arthur pretende ter filhos, mas Alice tem medo que eles herdem a babaquice do pai.

2 comentários:

Críticas são sempre bem vindas. :D