quinta-feira, 24 de março de 2011

Outros 500.

Queria muito, dia desses, olhar para trás e ver toda a obra da minha vida sendo repassada para as outras gerações, como os castigos de Deus para quem o desobedecesse na época de Moisés, quando ele voltou da montanha com as pedras, ou tábuas, ou sabe-se lá o que, dos mandamentos nas mãos.
Digo castigo de Deus da época de Moisés, pois hoje o "não matarás, ou será amaldiçoado o seu filho, e o filho de seu filho, e todas as próximas 500 gerações provindas de ti" não funciona mais, porque ando vendo muita gente matar e mesmo assim ficar rico e colocar meio litro de botox em cada lábio.
Na verdade, acho que Deus cometeu um leve deslize ao amaldiçoar todas as gerações de quem não o seguisse, porque pelas minhas contas era para eu ainda estar pagando o assassinato cometido por um dos meus prováveis tataraquatraquintalhavôs peregrinadores das montanhas, ou romanos conquistadores, ou quiçá monarcas-cortadores-de-cabeças.
Mas discuções religiosas (ou controversas à religião) à parte, voltemos à minha quimera (adoro essa palavra) de aspirante à escritora. Acho belíssima a relação das gerações mais novas com certos autores. Pena que a maioria já morreu, e foi considerado um louco ao longo de toda a sua vida, mas pelo menos hoje tem milhões de admiradores anônimos que quotam suas frases em toda a rede mundial de computadores.
Falando em loucura, acho que esse é o segredo. Tem gente que diz que o outro escreve bem, e esse melhor que aquele, e o outro melhor que esse. Mas acho que não seja bem assim, "escrever bem". Imagino que tudo uma questão de visitar o velho aurélio, ou o moderníssimo google e descobrir palavras novas que agradem o ouvido (ou não), aliar o gosto pelo descobrimento da palavra nova a um conhecimento básico de gramática e então dar o vazão a loucura. Vide meus textos que tomam conotações das mais variadas.
Escrevo crônicas, contos, poemas e todo um clichê bem pouco relevante sobre minhas desilusões amorosas, que acabam acarretando meus admiradores, que, no momento, não devem passar de meia dúzia. Mesmo assim muito obrigada aos poucos e bons.
Não gosto de me definir como escritora de não sei das quantas, com o estilo fulano de tal, que tem como principal caracterísca o seu blábláblá. A principal característica da minha escrita é o meu senso humano das coisas, portanto, tudo que escrevo é incerto e passageiro, como o ser humano tem sido há alguns muitos anos.
Mesmo assim, gostaria de ser base pra alguém, como muitos foram base para mim. Acho que é por isso que estou pouco me importando com o salário de meia tigela do professor nesse país e resolvi por fazer história sem medo de ser feliz.
E por falar em medo de ser feliz, acho que a escrita é um meio libertador de monstros, de tristezas, de melancolias e de todo um etecétera repleto de adjetivos que combinem com depressão. O problema é o medo de ser feliz. As pessoas tem medo de pegar um livro e ser feliz, de pegar na caneta, ou no teclado, e ser feliz. Se deixar levar pela loucura dos seus tons de escrita, sem medo da forma culta ou dos erros de concordância. Amar a escrita é o primeiro passo para uma relação saudável com a língua portuguesa, hoje, coitada, tão desvalorizada pela sonoridade e universalidade do inglês, que vem a ser muito mais fácil gramaticalmente, fazendo o coitado do português perder outro ponto, o que mesmo assim não o faz perder a beleza.
Mas não se assustem, aprender (eu disse aprender, por favor, digam um adeus sonoro para os decorebas, que aí o mundo talvez pare de passar fome de comida e de cultura) gramática é mais ou menos como andar de bicicleta, é dificílimo no começo, mas logo passa, e você não desaprende nunca mais. Pode até levar uns tombos, desequilibrar de vez em quando, mas esquecer é difícil. Talvez só esqueça com aquela doença de nome alemão que eu não sei a grafia.
Só pra terminar, quero falar sobre o acabar da fome de comida e de cultura através do aprendizado. Não é que eu seja uma daquelas pessoas viciadas nos estudos, porque tenho minhas formas de diversão. Acontece que aprender, aprender é belíssimo, e divertido, e curioso, e é como um filme que nunca tem fim. Além de tudo, aprender no final das contas é muito útil, aprendendo você saberá argumentar, aprendendo à argumentar você passa a olhar a democracia e a justiça de outra perspectiva e então mantém sua opinião de pé através de única e exclusivamente argumentação. Com um novo senso de justiça, você aprende que tem voz e pode cobrar, e além de cobrar, fazer a sua parte para que as coisas melhorem pra todo mundo, e se todo mundo acabar criando, pelo menos um cadinho, esse senso crítico sobre o que é aprender o consumo desvairado poderá diminuir, a justiça poderá começar à funcionar de verdade, e então a fome pode cair por terra, cada vez mais e mais, e junto à queda da fome poderá ser levantado um império de cultura, de literatura, de artes plásticas, de teatro, de música. Mas aí, bom, ai são outros quinhentos.

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