Hoje eu decidi brincar. Decidi brincar do medo de que a idade me assombre com seus dias sórdidos que me aproximam mais e mais do derradeiro fim, certeiro e incontornável, esse final que amedronta até o mais corajoso, que monta valores para que haja em mim uma vontade repleta de que o final não chegue. Tomara que não chegue, que não chegue nunca, afasto agora.
Afasto de mim as marcas que são tão reais, tão reais e tão más que se mostram mais verdadeiras que a minha própria mente, que os meus sentidos. As marcas não obedecem o que eu peço, elas só crescem, crescem.
Saibam que esses dias fui no médico, e meus ossos pararam. Cessaram sua formação e agora só tendem a aproximar o ínfimo de mim. Chegaram naquele pico altíssimo da montanha russa e agora vão descer, formidavelmente, através dos anos que por mim vão passar e açoitar com pressa, sem me dar nem sequer a chance de gritar por um alento, de tentar achar socorro no verbo, no poema.
O verso é amigo, ele fica quando tudo se vai. Queria eu que quem envelhecesse fosse o verso, que o verso ficasse feio, ficasse gordo, ficasse pequeno pra sempre. Queria eu que o verso me desse sua juventude nata e eterna para que os anos não mais me obrigassem a ter que olhar de perto toda essa maldade que eles têm em si. Os anos são maus, o tempo é mau, o espaço é mau.
No final das contas, tenho mesmo é raiva. Me adoeço por raiva, por essa raiva insana que desenvolvi. Tenho raiva da minha consciência, não a queria, estaria muito grata se me fosse dado no lugar dela dentes, ferrões, garras, asas, qualquer coisa que deixasse menos maçante a sobrevivência. Que servisse unicamente para a sobrevivência, para a subsistência, porque existir me exige demais.
Reclamo mesmo, tenho que reclamar, porque vida que não é reclamada tem essa conotação meio distorcida de quem só segue e não tem medo. Eu tenho medo, e muito. Mas meu medo é diferente, ele não me prende, não me acorrenta, cria raízes sim, mas elas são fixadas em outro lugar na mente. No mapeamento do meu cérebro talvez exista essa parte de medo, que sem perceber foi apossada pela parte que cria. Meu medo é medo grande, moço, mas é medo criado, então sabe se comportar. Não é birrento, não se comporta feito bebê, foi agarrado por essa parte minha que gosta de dar vida às coisas que eu sinto, e deu vida à ele também, que hoje se comporta de maneira sutil. Apesar de sutil o bicho é grande.
Queria eu entender de biologia, de mapeamento cerebral. Queria eu dar veracidade empírica pros meus devaneios, queria eu que eles fossem experimentados por todos, sentidos por todos, e apreciados ou depreciados então pelo que são, não pelo que parecem.
Resta agora é o julgamento, o julgamento do meu eu e dos meus medos tão evidentes que fazem desse amontoado embaralhado de palavras, a estrutura de mim. Quem vê de fora não entende não, eu entendo que não entendam, nem peço que façam isso. Não quero isso não. Pode ficar sem entender, se entender é perigoso amedrontar também e não conseguir criar o medo com arte. Pode ficar com religião, pode ficar com as verdades, pode ficar com a música, pode ficar com a dança de tentar escapar do que não se escapa ninguém. Pode viver pelo medo que se esconde nessa capa fria que você mesmo inventou, não julgo não, porque a minha capa é essa brincadeira aqui.
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