Eu assisti ao desejo encarnado, corrosivo, reprimido, tentando criar vida pelos atos, pelo mover dos lábios. Eu assisti passo à passo, de camarote, o levantar do império da vontade louca, insana, sem pé no chão. Eu vi flutuarem as letras, vi o sorrir distante que trocavam, vi o falso desprezo, vi o ímpeto do proibido. Quis fechar os olhos para fingir não perceber que aquilo que cruzava entre eles me fazia sentir o queimar de minhas veias, quis negar o sofrimento ocultando meus próprios sentidos, menti para minha mente negando tudo aquilo que eu enxergava, negando a vontade de que se concretizasse ali a fúria infinita desse maldito e perturbador sentimento, que rouba a fala de quem assiste, que rouba o ar de quem sente, que faz da vida uma imensidão de incoerências apontando sempre para a concretização sempre tão mal estabelecida desse tal de amor.
Desgostosa com a singularidade da palavra amor, queria sentir outros fonemas, banhados daquilo de mais errôneo na insanidade humana, eu quis que aquele amor se concretizasse, mesmo que fora e muito além de mim, eu esperava por ele. Estávamos todos cansados da última festa, todos mergulhados no choque dos sentidos sóbrios, todos com os olhos inchados de ressaca moral. Naquele silêncio, todos nós sabíamos que eles se pertenciam, que não importava o gênero que se fazia presente ali naqueles dois corpos, a única coisa que me era sabida era que aquelas almas ansiavam uma pela outra com a necessidade de fome, com a necessidade de prazer. As almas transmitiam por si só todas as palavras que penetravam a pressão daquele ar em meio aquele silêncio sórdido. Nenhuma palavra foi dita com os lábios, não era necessário.
Eu sentia, forte como uma chama, que aquilo que aqueles corpos procuravam estava disposto ali, todo meu ser queria assistir o concretizar desse império de sentidos que se abstraiam em meio a força dos nossos olhares calados. Eu sofri por essas almas, sofri pelo latente ardor do impossível, sofri pelas celas invisíveis que prendiam essas almas tão distantes, mesmo que tão necessitadas uma da outra. Eu quis chorar por elas, quis amar por elas, quis beija-las, alimentar-me daquela imensidão inatingível que o magnetismo entre os dois corpos causavam dentro da sala.
O estado daquelas quatro paredes já se havia se tornado insustentável para mim, e eu já não podia mais ficar calada assistindo aquele mórbido funeral dum amor que mal nascera, eu precisava sair. Eu abri a porta, cambaleando, sentei-me do lado de fora, enquanto as almas ainda nadavam caladas no limbo da vontade de concretizar aquilo que a razão nega, mas os olhos insistem em entregar.
toda vez que me sinto fraca, eu leio esse texto, ele me da sentido aos meus sentimentos!
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