E tudo aquilo que eu tinha comprado, guardado e preservado também não faziam de mim muito mais que um amontoado de coisas sujas, usadas e nada originais. Eu era uma parte mal colocada e pouco relevante de uma imensidão quase lúgubre.
Eu quis me apegar aos santos, aos nomes, aos papeis, quis todas as músicas e todas as roupas, quis os quadros e o sofá da sala, quis os móveis bem limpos, quis a pia organizada, quis os produtos separados, quis os filmes e toda criatividade. Cobicei o luxo de prêmios, cobicei os elogios, as palavras, cobicei estar livre de qualquer angústia.
A falta de resolução me amedrontou como quem foge da própria da própria morte, e era exatamente dela que eu quis fugir quando os anos ainda não me tinham sequer chegado. Quis adiar, e fazer tudo para que as horas se prolongassem, em vão.
Não. Nem que eu me formasse, nem que eu me casasse, nem que eu tivesse filhos, nem mesmo o contrário. Nem que eu me embriagasse, nem que eu chorasse, nem que eu tomasse meus remédios com precisão, tudo era vão, e vazio. Nem que eu me deitasse com o homem mais belo, nem que eu tivesse a noite mais prazerosa, nem que eu ganhasse todo o dinheiro, não me valeria de nada. Nem que eu mudasse de igreja, nem que eu sentisse uma alma, nem que eu ouvisse o sacerdote, nada pode me tirar do anestésico breu da minha mórbida realidade.
E não foram as festas, as transas, não foram as cartas, as roupas, nem os produtos de beleza que me trouxeram até aqui. Aqui estou porque é por aqui que os restos ficam, as escórias, as sobras. Neste pedacinho de terra estão as cabeças que se super valorizam, e só veem o brilho naquilo que vem da fala.
Da fala que resmunga voraz na minha mente a todo instante, veio a glória do chão, a glória do choro e dá raiva, a glória da consumação do grande nada no fim da vida, a glória da dor. Gloriosos momentos de quem cai, gloriosos momentos de quem se afoga, os gloriosos momentos de quem sente que não há nada que reverta esse quadro terminal, de já começar morrer quando se nasce. Estamos com os dias contados, cristãos ou pagãos, acabarão em restos daquilo que mais desprezam.
Não sou os papéis, nem as letras na minha identidade, não sou as cores que eu vejo, não sou meu cabelo hidratado, não sou as músicas de alegria, não sou só felicidade, não sou só tristeza, não sou só esse amontoado louco de letras que de tão desesperados não mudam nada. Não sou o status, nem nada que compro, não sou feita de nada que não acabe.
Eu sou a mesma matéria em decomposição como todo o resto. E nós somos todos uma parte da mesma podridão.
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