Amor, é conveniente que seja falado sobre você. É interessante que os devaneios acerca de sua existência se discorram com tanta graça pelas inescrupulosas bocas humanas que falam de ti, todas como se o conhecessem em essência, coitados de nós.
Quero olhar para ti, amor, deleitar-me nas alegrias que propaga com seu cheiro, falar das flores e dos sorrisos, quero perder em você toda minha timidez, não quero me intimidar em sua grandeza, quero te olhar nos olhos, quero teu beijo, teu sorriso, a imagem de você dormindo no meu colo.
Se fosse simples assim sua existência, amor, jamais teria o amaldiçoado pelos séculos. Jamais levantaria em seu nome palavras de escarnio, jamais riria dos seus trajes, nem sequer duvidaria da sua veracidade, apenas o tomaria em meus braços e me afagaria em teu cheiro sublime dia e noite, como uma criança pura.
Mas tem que ser você, amor, o criador também das desilusões, tem que puxar de volta o gosto amargo de encontrar na verdade uma mentira, e de sentir-se indefinidamente vazio. Tem que se ausentar, esse amor maldito, tem que deixar crescer no peito a raiz de tudo que é ruim, tem que chorar e sofrer, tem que assistir desmoronar o castelo e manter-se calado, para que os mandatos do soberano amor sejam cumpridos, quer a mente queira ou não, quer o corpo queira ou não. Se o amor quer não é necessária que seja dita nenhuma palavra sequer: ele faz o estrago, assume a culpa, e continua a zombar.
Amor, não sei quem você é, não sei quão profunda pode se formar a incógnita em torno de ti, mas acredito que venhas a ser o filho bastardo da pureza com a insanidade, que numa noite qualquer embebedaram-se até que você fosse concebido. Tem cara daquilo que é bom, sorri com alegria para todos que o encontram, mal sabem o monstro que se levantará cada vez que seu veredito for exaltado.
Inocência é a nossa, de crer que algo atingiria tamanho grau de plenitude, de sorrir tão calmamente e alimentar a visita acomodada, que não diz quando vai ir embora, e nem avisou a hora de chegar. Alimentando-o vagarosamente ele cresce, por nossas próprias mãos, para cuspir de volta, com amargura, o oposto de tudo que recebera o que com tanta esmera criamos e vimos crescer.
Perversos, nos tornamos o reflexo daquilo que o amor tornou-se em nossa vida. Eu me esqueci, me esqueci da imagem do amor, me esqueci de como o amor toca, de como o amor beija, me esqueci do frio do amor, do sentido do amor, meu conceito de amor se desfez por completo, agora é nulo. O amor que criei com tanto cuidado, virou as costas e foi para o mundo, deixou que eu suportasse sozinha a falta que me fez, e exigiu que eu reaprendesse a viver novamente. Desidealizei o amor, é o filho que tive, neguei e amaldiçoei por diversas vezes, e agora aceito pacata, com a cara que ele se apresentar à minha porta. Mesmo que não volte mais. Mesmo que volte aos montes. Mesmo que volte diluído nas fraquezas mais humanas, o aceitarei de volta, o abracarei, e o deixarei ir quando quiser. Mesmo que me machuque no íntimo, mesmo que ele saiba do que fez e volte com essa cara vagabunda que assumiu diante a mim.
Depois de tantas desventuras com esse amor, descobri que ele não é nada, e é tudo. Amor só é amor quando a humanidade é deveras inapta para completa-lo. Amor é falta de integridade. O amor é um filho da puta.
Amor filho da puta, realmente.
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